Afinidades eletivas

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Quando eu era criança, minha mãe sempre me dizia para tomar cuidado com as más companhias. Embora desprovida de cultura, minha mãe sabia o que dizia. E eu, que em geral fui uma filha obediente, resolvi seguir pela vida afora o conselho da minha mãe, de tal forma a poder afirmar mais tarde o dito belamente sintetizado numa frase do poeta Manoel de Barros, que eu carrego sempre na ponta do pensamento: Os outros: o melhor de mim sou eles.

Agora, nestes tempos de redes sociais, em que todo mundo “quer ser seu amigo”, cuido de não esquecer a velha lição materna. Seleciono, com certo critério, os amigos que transitam pelo meu mundo virtual, porque mesmo no Facebook e no meu site, estou sempre expondo minha alma intranqüila e pondo meu coração a nu.

Assim é que tenho, na maioria dos casos, feito poucas, mas boas amizades na rede. “Relaciono-me”, no mais das vezes, com pessoas as quais admiro intelectualmente e/ou pelas quais tenho afeto verdadeiro. E evito, tanto quanto posso, intimidades com estranhos.

Mantenho também uma certa observância deste mesmo conselho no que diz respeito aos sites que freqüento. Minha mãe dizia que a gente não devia ficar indo à casa de qualquer um, principalmente na casa de quem a gente não conhece direito.

De modo que entre os ambientes virtuais onde mais me sinto à vontade, estão, naturalmente, todos aqueles em que se fala de livros, entre eles, os sites das editoras que mais admiro, como é o caso da Companhia das Letras.

No meu entra e sai nesta casa, encontrei um amigo e tanto, que mesmo sem saber que eu existo, muito tem me ensinado sobre como ser e estar no mundo.

O Luiz é um homem admirável, não apenas porque encarna o ideal de editor que todo iniciante no ofício mira e deseja ser (ou que todo escritor gostaria de ter), mas também pelos bons sentimentos e atitudes que suas palavras inspiram. Sim, estou me referindo ao Luiz Schwarcz. O próprio. Em pessoa e palavras.

Acompanho avidamente o blog que ele publica, onde sempre aprendo muitíssimo, me divirto e me emociono, a ponto de comentar com meu marido as novidades que o Luiz “me conta”, como quem relata um encontro real com um velho e bom amigo.

Óbvio dizer, mas o Luiz é daquelas pessoas que sempre nos acrescentam algo, como os extraordinários e inesquecíveis escritores e personagens com os quais nos deparamos nas leituras da vida.

Agora, enquanto escrevo, vou pondo as palavras nas costas do ritmo (como aconselhava Virginia Woolf) seguindo a dica que o Luiz me deu em seu último post. Escrevo ao som da sonata para piano número 29, opus 106, Hammerklavier, de Beethoven. A mesma música que o Luiz ouviu repetidamente nas férias, enquanto lia “Guerra e Paz”.

É, eu sei… o bom gosto do Luiz é fascinante! O amor dele pelos livros e pela música tem algo de comovente até. Incrível como ele consegue ser erudito sem ser pedante! Coisa raríssima de se ver.

Hoje eu fiquei especialmente feliz ao encontrar nas mais recentes palavras do Luiz outras afinidades mais corriqueiras: o gosto por praias e lugares desconhecidos e uma leve insinuação de que ele é alguém que costuma ter um certo desejo de sol.

Tenho a impressão de que se minha mãe pudesse conhecer o Luiz e saber um pouco mais sobre ele, ficaria orgulhosa de mim, do mim em que eu vou me transformando a cada dia que passa, a cada nova conversa, a cada novo livro, música ou pensamento que vamos compartilhando pela estrada.

É claro que eu sei ser esta uma via de mão única! O Luiz não me conhece, mas isso não importa. Pois ele já é para mim uma companhia inseparável, tanto quanto Virginia, Jane, Clarice, Lygia, Adélia, Carlos, João, Fernando, José… E tantas outras excelentes companhias, sem as quais já não posso viver.

De modo que deixo aqui registrada minha gratidão ao Luiz e a esta amizade improvável, uma amizade que eu espero poder merecer pelo resto da vida. Pois também acredito numa outra máxima, provavelmente ouvida da boca de alguma outra sábia mãe, a de que cada um tem os amigos que merece.

sexta-feira, janeiro 20th, 2012 Sem categoria Nenhum Comentário

O punho de Deus

Chegar ao fim de qualquer coisa deixa em nós um misto de alegria e melancolia. Alegria pelo objetivo alcançado. Melancolia pela perda que representa chegar ao “fundo púrpura”, antes desconhecido e misterioso, para o qual caminhávamos. Viver é, em certa medida, avançar para um fim, insuspeito e assustador. Rumo a um dissolver-se em algo maior? Quem saberá?

Depois de quase dois meses, concluo a leitura da biografia de Virginia Woolf. Quase 600 páginas. Cerca de 60 dias de convívio noturno intenso. Centenas de horas, minutos, segundos…

Foram dias tenebrosos esses, nos quais senti – na vida real e literária – de forma contundente, o movimento do “punho de Deus” agindo sobre nós.

Virginia foi minha companheira das horas mais sombrias, porque à noite, enquanto as paredes dormem, todas as dores e medos se agigantam, o sono tarda a chegar e a gente sempre espera o raiar do dia como promessa de renascimento. E enquanto o renascimento não vinha, eu tinha Virginia para segurar minha mão durante a travessia.

Alguém poderá objetar que ter Virginia como anjo da guarda quando se está enfermo não é a melhor das escolhas. O que não sabem é o efeito curador que o espelhamento sincero pode ter sobre uma alma desesperada.

Lendo “A Medida da Vida”, caminhei com Virginia pelos bosques de Rodmel; sentei-me com ela em frente ao fogo em Monk’s House para ler Shakespeare e Yeats declarando “que os grandes escritores nada têm, a não ser seus corações estupefatos e cegos”; recebi Freud para um chá em Londres, quando ele já estava velho e curvo; colhi amoras para a sobremesa do jantar nos campos; e ouvi o barulho do ir e vir das ondas durante viagens ao litoral, depois do que, adormecia tendo na boca um gosto de sal.

Por noites a fio, acompanhei os passos de Virginia em seus dez últimos anos de vida, sua rotina diária de escrita e leitura, a angústia de não sentir-se suficientemente boa para escrever suas histórias e compor seus personagens. A luta para ter controle sobre os pensamentos que a desequilibravam arrastando-o para o fundo de um poço imaginário.

Escrever, para ela, “era como estar suspensa numa bolha mágica que a protegia dos choques vindos de fora”. “Às vezes, quando ela estava cansada ou distraída, tornava-se violentamente consciente do ‘mundo baço e desiludido’” e eu, através do olhar de Virginia, reparava ao meu redor e via com maior nitidez as banalidades a que tanto nos apegamos e a falta de sentido de nossas ações.

Tudo isso ajudou-me a atravessar a escuridão.

Foi então que, duas noites atrás, antes de ler o último capítulo da vida de Virginia, já madrugada, fui acordada pelo meu marido que me dizia em lágrimas: “Eu abri o exame e deu negativo. Está tudo bem com você”. Cambaleante, eu o segui até a sala, conduzida a uma tela de computador que me ofuscava os olhos recém-abertos. Em meio à luz, pude ler umas palavras quase inverossímeis que diziam: “Negativo para células atípicas”. Lembro-me de ter perguntado a ele se eu não estava sonhando…

Desde então, eu vinha retardando o momento de ler o final do livro, um final que eu já conhecia, porque eu queria, queria muito, que Virginia não entrasse no rio. Cheguei a imaginar a possibilidade de alcançá-la ainda na trilha e dizer: espere, não vá, fique um pouco mais!

Mas nossos tempos eram diversos. Habitávamos mundos distintos e eu nada pude fazer:

“Era um dia de primavera: claro, frio, seco. Sob suas botas de borracha o caminho lamacento brilhava. E o tempo passava…Ela se esbarrou nos arbustos, tropeçou em pedras. Apanhou uma pedra, e mais outras, e as pôs nos bolsos do casaco. Depois entrou pela água adentro, de bengala em punho, e deixou-se levar…”

Não houve tempo para que eu dissesse algo sobre a minha gratidão.
Não houve tempo para que eu fizesse minhas suas palavras:

“Se eu não tivesse sofrido tanto, não poderia ser tão feliz”.

Virginia não estava mais lá.

domingo, janeiro 15th, 2012 Sem categoria Nenhum Comentário

Literatices III

Já está pronto o terceiro livro da série O Menino e o Dinheiro, de Reinaldo Domingos, cuja adaptação infantil foi feita por mim, com as belíssimas ilustrações do talentoso Ariel Fajtlowicz. Em breve, nas livrarias de todo o país.

quarta-feira, dezembro 21st, 2011 Sem categoria Nenhum Comentário

A medida da vida

Ontem comentei no post de Joselia Aguiar, sobre o meu grande e repentino interesse pelas biografias. Primeiro, foi Clarice, escrita por Benjamin Moser, livro simplesmente arrebatador, que me fez amar mais e mais a estranheza poética de Clarice e reler compulsivamente vários de seus textos um na sequência do outro. “Água Viva” me deixou meio em transe nos últimos dias, arrastada pela torrente do que está “atrás do pensamento” em potência máxima, até chegar ao fundo de mim mesma:

“E eis que depois de uma tarde de “quem sou” e de acordar à uma hora da madrugada ainda em desespero – eis que às três horas da madrugada acordei, plenitude sem fulminação. Simplesmente eu sou eu. E você é você. É vasto, vai durar. O que escrevo é um “isto”. Não vai parar: continua”.

Depois desse redemoinho clariceano, me senti como que presenteada pela Cosac Naif, com o lançamento da biografia de Virginia Woolf – A Medida da Vida, de Herbert Mader. O livro, que tem projeto gráfico semelhante ao de Clarice, é belíssimo, a começar pela orelha, com o primoroso texto escrito por Maria Rita Kehl. E o melhor de tudo é o efeito. A exemplo do que aconteceu com Clarice, a biografia de Virginia me faz ter vontade de intercalar um capítulo e outro com a leitura ou releitura dos textos dela: Mrs. Dolloway, To The Light House, The Waves. E Virginia, que já estava em mim de um modo tão imperfeito quanto Clarice, foi me tomando a alma, a cada frase…

Quando sua residência em Londres foi bombardeada durante a Primeira Grande Guerra, ao visitar sua casa, totalmente devastada, e constatar as poucas chances de sobrevivência dos vizinhos mais pobres, Virginia, desolada, comentou: “Nós, pelo menos, estivemos na Itália, e lemos Shakespeare. Eles não”.

Suspeito que talvez fosse essa a sua verdadeira medida da vida. E eu, aqui, só e desolada a meu modo, em meio às minhas minúsculas guerras cotidianas, vou lendo Virginia e esperando o fim do mundo para quem sabe dizer um dia: Eu, pelo menos, li Virginia e Clarice e, olhando-as, pude reconhecer a mim mesma, e dizer, certa de mim e do que sou: Eu sou isto! E basta. É vasto, vai durar.

E se as minhas precárias palavras forem insuficientes para dizer o meu “isto”, que são elas em mim, talvez as de Maria Rita Kehl ao descrever Virginia o façam de modo melhor:

“A Virginia que Mader nos apresenta é uma mulher que enfrenta o lado trágico da existência sem deixar de aproveitar todas as chances de alegria que a vida lhe oferece. Uma pessoa atormentada, depressiva, mas capaz de dizer (o que em mim, Simone, provoca um eco profundo e bom):

‘Se eu não sofresse tanto, não poderia ser feliz‘”.

segunda-feira, novembro 28th, 2011 Sem categoria Nenhum Comentário

Feriado de mim mesmo

Os feriados existem para que possamos sair da máquina. Os feriados existem para que possamos viver para além do frenético ritmo da produção. Os feriados contrariam a lógica do capital e da acumulação. Nos feriados, ficamos dispersos, indolentes, sensíveis ao que está dentro e não fora de nós. Vemos, sentimos e pensamos em coisas nas quais não se pode ter atenção no dia a dia fragmentado por demandas externas. As demandas dos outros ficam para depois. Nos feriados podemos seguir o ritmo interno do sono, da fome, do desejo. Nos feriados podemos existir em nós mesmos.

Essa música, escrita por Don McLean em homenagem a Van Gogh, data dos anos 70. Dizem que o título se refere ao quadro “Starry Night.” A canção descreve diferentes quadros do pintor. O compositor escreveu a letra após a leitura da biografia de Van Gogh. Foi sucesso na Inglaterra e nos EUA. Foi tocada diariamente por muitos anos no Museu Van Gogh de Amsterdã. A partitura está segura no museu junto com os pincéis, chapéu e outros pertences do pintor.Diz-se que Van Gogh pintou “Starry Night” na clínica onde estava e quando soube que durante toda sua vida só havia vendido um quadro.

Agradeço duplamente a Douglas Figueira: por ter me enviado o arquivo que tanto me tocou, e por ter feito e esforço necessário para converter de modo que eu pudesse compartilhar no Facebook.

Aproveite que você hoje tem tempo: veja, escuta, sinta! Afinal, é para isso que os feriados existem.

terça-feira, novembro 15th, 2011 Sem categoria 1 Comentário

Que bom que você veio…

No dia 23 de novembro do ano passado eu tinha um compromisso inadiável: colher um autógrafo e assistir uma palestra de Benjamim Moser, autor da biografia de Clarice, que à época tinha se tornado a sensação de quase todas as revistas e cadernos culturais do Brasil.

Fui à Livraria Cultura do Conjunto Nacional com minha amiga Lívia. Estávamos bem no início da fila, umas dez pessoas apenas à nossa frente. Entre um autógrafo e outro, eu espiava os gestos e olhares de Benjamin, um rapaz lindo, cabelos desalinhados e gigantes olhos claros disfarçados sob as lentes de aro preto.

Quando chegou o meu momento de receber seu autógrafo, ele fez uma pausa, me olhou intensamente como se quisesse me adivinhar de alguma forma, e com aquele sorriso que abraça a gente de tão acolhedor e sincero, perguntou meu nome e assinou, com uma caneta prata, numa das páginas pretas que abrem a biografia: “Simone, que bom que você veio. Um abraço. Benjamin Moser”.

Durante a palestra, ouvi Benjamim dizer do seu amor por Clarice e por mais de uma vez fiquei comovida com o afeto que esse norte-americano devota à nossa maior escritora, bem como à nossa língua e à nossa cultura. Mas saindo de lá, não li o livro. Algo naquele calhamaço de quase 700 páginas me amedrontava. Quase um ano se passou desde então.

Estou hoje, ontem, anteontem e já há alguns dias, mergulhada no livro que Benjamin escreveu sobre Clarice. Passo o dia ansiosa pelo momento em que tudo vai se aquietar em casa e que eu vou poder me recolher ao meu quarto e seguir Benjamin na sua intensa busca pela verdade de Clarice.

É indescritível o prazer e o sabor que emanam da mistura Clarice Lispector-Benjamin Moser. Clarice talvez inventasse uma palavra para dizer esse sentimento… Eu, com os precários recursos de linguagem de que disponho, arrisco dizer que, num futuro não muito distante, quem for ler Benjamin Moser falando de Clarice Lispector talvez sinta algo parecido com o que sentimos hoje quando lemos Walter Benjamin falando de Charles Baudelaire.

Naturalmente que nessa minha analogia, surgida agora no presente da escrita, há uma associação livre. Reparem o C de Clarice que faz par com o C de Charles e o B de Benjamin dialogando com o B de Baudelaire, sem contar a duplicidade do Benjamim. E, se quisermos ir mais longe, na simetria invertida que existe no M de Moser quando emparelhado com o W de Walter.

Clarice, na sua busca mística e cabalística pelo poder absoluto da linguagem, talvez encontrasse um significado por trás de tais combinações de letras.

Instigada pelo desejo meio infantil de encontrar nessas figuras que tanto adoro algum espelhamento possível, olho para o nome Clarice Lispector, com sua sonoridade cortante e altiva, do C, do L, e do T, e me enxergo dentro dela, não pela via direta, mas pelo nome de minha mãe, alice, inscrito em Clarice.

De outra perspectiva olho para o nome de Benjamim Moser, agora sentindo a sonoridade apaziquadora e terna das letras M e N, e vejo meu nome, simone, inscrito, em fragmentos, no nome dele, até que meus olhos, insatisfeitos, pousam no “mim” ao final de Benjamim.

Tudo isso eu comecei a imaginar agora mesmo, quando lia uma matéria, dando conta de que Benjamim Moser acaba de traduzir “A Hora da Estrela” para o inglês. Seu The Hour of The Star deve sair no próximo dia 9 de novembro, nos Estados Unidos. E, talvez, no próximo dia 23 de novembro, exatamente um ano após o meu encontro com ele, seu mais novo mergulho no mundo de Clarice talvez esteja disponível a quem, como eu, quiser se aventurar a ler Clarice Lispector traduzida por Benjamim Moser, em inglês.

Seja qual for o resultado dessa combinação insólita de letras para verter Macabéa para o inglês, tenho certeza que poderei dizer:

“Benjamin, que bom que você veio. Um abraço. Simone Paulino.”

terça-feira, outubro 11th, 2011 Sem categoria Nenhum Comentário

Clariceana

Clarice Lispector. O nome é em si um estilhaço. Sonoridade pontiaguda que penetra fundo no ouvido-alma da gente. Clarice. Clarice é perfurante. Entranha-se no reino das palavras e diz soberba: Tenho as chaves! Clarice é quase um verbo. Se eu Clarice. Se tu Clarices. Como seria o mundo se todos nós Clarícemos? Mas Clarice está em mim de um modo imperfeito. Se eu Clarice era só uma possibilidade remota que não se completou. Então trago Clarice para o presente e ela me atinge qual lâmina afiada e transforma tudo à minha volta em fragmento. Não consigo apreender seus textos inteiros. Por isso, vou aos poucos. Recolho aqui e ali uma parte. Clarice, metonímia pura. Perguntei a Clarice como é a vida após a morte. Clarice, escorregadia, me inquiriu: Que importa o futuro do pretérito? O instante, só o instante conta. Entenda, enquanto é presente! Esse mesmo, translúcido, que ao pensares nele já te escapa. Agarra-te a ele. Prenda-o em ti. É o que tens por hora, e é muito, creia-me. Pedi uma resposta e Clarice me devolveu perguntas. Será isso? Viver, uma infinita pergunta? Um consulta interminável a um dicionário com sucessivos verbetes remissivos? De onde? Para onde? Por quê? Por quanto tempo? Tempo? Que é o tempo? Se não me perguntam o que seja o tempo, sei. Mas se me perguntam, onde a resposta? Não há respostas, meu Deus, é isso? Deus? 

Tenho febre de estar viva, e ela me consome, por quê? Será a existência um eterno delírio, por quê? A chuva lavou a cidade e não refrescou meu espírito, por quê? Tenho uma mesa farta e sinto fome, por quê? O espelho não reflete minha alma, por quê? Cada pergunta é um caco de Clarice que penetrou na pele porosa do meu pensamento. As ruas se cobrem de flores amarelas e roxas e isso me inquieta, por quê? A morte é roxa e a vida, amarela, e a cada quarteirão elas se alternam. Sim, seria uma resposta. Mas é belo o roxo alternado com o amarelo. E há um sopro que às vezes mistura tudo numa cor indefinida e vaga. Tese, antítese, síntese. É isso, a vida? Queria ir além, lá, bem perto do coração selvagem da vida. Mas eu, Simone. Se eu Clarice…




segunda-feira, outubro 10th, 2011 Sem categoria Nenhum Comentário

Pão de poesia

Uma chuva fina acinzentou a cidade. A chuva traz sempre um desejo de poesia, como se deseja às vezes um pão quentinho recém-saído do forno. Não é fome, no mais das vezes. É desejo, quem sabe, do calor que exala do pão… As palavras, meu pão de cada dia, às vezes não me bastam na sua forma banal, é preciso um arranjo insuspeito, de som e letras e imagens, um cheiro e um gosto, para aplacar o desejo que sinto… Abro o Facebook e encontro fartura de poesia ofertada pela minha poeta amiga Solineide Maria de Oliveira.

Saramago,
ensina-me a ler minhas dobras,
supostas vielas dificeis de ser.
Entender.
Ajuda-me a ter a destreza de escrever,
ler e aprender
que o mundo é para a gente viver
e fazer viver.

Saramago, Drummond, Clarice, Cecília, Jesus,
Maria Dolores, Santo Agostinho,
poetas, poetisas
ajudem-me a ver!

Como se não bastasse, as palavras dela vêm acompanhadas pela voz e outras palavras de Saramago e me vejo inclinada a parafrasear Soli e dizer:

Obrigada, Saramago, Drummond, Clarice, Cecília, Solineide…
Obrigada, poetas e poetisas por me ofertar meu pão de cada dia.

domingo, outubro 9th, 2011 Sem categoria 1 Comentário

A felicidade é azul?

Incrível como a intuição de uma criança sobre a beleza da arte pode ser certeira. Menina ainda, eu fiquei durante muito tempo mexida pelo filme “O pássaro azul”, assistido numa longínqua Sessão da Tarde da TV Globo. Na época, eu não entendia absolutamente nada de arte, de filosofia ou coisa que o valha. Mas senti aquela história profundamente, a ponto de guardá-la comigo na memória por toda a vida.

Tempos atrás, lembrei-me do filme e com as facilidades da internet, sai em busca de informações. Só então descobri que “The Blue Bird” era um clássico do cinema, estrelado por Elizabeth Taylor, Jane Fonda, Ava Gardner. Diante da descoberta, senti uma vontade imensa de ter o filme pra mim, já que ele fazia parte da minha vida e da minha infância, e eu não tinha quase nada material que me lembrasse a minha infância. Procurei na Livraria Cultura, mas soube que havia apenas uma versão em inglês, esgotada, fora de circulação. Isso foi alguns anos atrás.

Hoje perambulando pelas prateleiras de infantis da mesma Livraria Cultura junto com minha filha Manuela, encontrei, surpresa, o DVD de “The Blue Bird”, com legenda em português. Eu me senti como se tivesse sido guiada até ele pela Fada da Luz. Agora, o filme da Coleção Cultclassic, de 2010, com a história das crianças que saem pelo mundo em busca do pássaro que lhes trará a felicidade está aqui ao meu lado, esperando para ser visto uma vez mais e quantas outras vezes eu quiser.

Como a personagem de Clarice, deixo-o ao largo, como que esquecido, simulando que não o tenho, para depois ter o espanto de me surpreender de o ter. Resta saber se agora que o tenho, aqui, ao alcance da mão, ele manterá em si (ou eu manterei em mim) o mesmo encantamento de quando ele era apenas uma pincelada de cor numa infância em tudo o mais sombria, quase sem luz.

sábado, outubro 8th, 2011 Sem categoria Nenhum Comentário

Arquitetura da felicidade

“A premissa para se acreditar na importância da arquitetura é a noção de que somos, queiramos ou não, pessoas diferentes em lugares diferentes – e a convicção de que cabe à arquitetura deixar bem claro para nós quem poderíamos idealmente ser”.

Essa frase, do livro “Arquitetura da Felicidade”, do filósofo Alain de Botton, diz muito sobre mim. Desde o tempo em que morava numa casa de dois cômodos sem reboco, com chão de cimento e quintal de terra sem muros, num dos piores bairros da periferia de São Paulo, eu já pressentia a importância que minha alma dava à questão da arquitetura.

Casa é abrigo, proteção. E eu, deste e de tantos outros pontos de vista, passei a infância meio ao relento. Por isso, creio eu, prezo tanto o aconchego dos lugares: um sofá macio, uma sala iluminada, um café acolhedor, uma cidade hospitaleira. Por isso, me exaspera tanto o desconforto, a desorganização, a falta de zelo para com o lugar onde moramos, trabalhamos, vivemos.

Quando estive em Londres, em julho passado, por um acaso determinado no erro do nosso guia de viagem, tivemos que mudar de última hora de hotel. Com o auxílio de um brasileiro, vendedor de bilhetes de trem da Euston Station, fomos parar, sem saber direito onde estávamos, no bairro de Bloomsbury.

Passado o stress inicial de ter que mudar os planos, achar nova acomodação, aos poucos fomos nos dando conta do que havia ao nosso redor. Bloomsbury é um bairro encantador, em todo o sentido que a expressão pode comportar. A começar pelo charme das fachadas, que aos poucos vão informando ao turista desavisado, a história do lugar.

Foi lendo uma da placas que indicavam o nome de personalidades que viveram por ali, numa de nossas freqüentes caminhadas pelas ruas do bairro, que minha ficha finalmente caiu. Bloomsbury (onde eu estava) era o mesmo Bloomsbury (onde estivera Virginia Woolf). Era o bairro do famoso Grupo de Bloomsbury, ao qual pertenceram vários intelectuais ingleses do início do século vinte. Andando pelas ruas, pude descobrir ainda vestígios de Charles Dickens e T.S. Eliot, que também viveram, moraram e trabalharam por lá.

A cada nova descoberta, eu me sentia mais em casa, mais integrada àquele espaço e com menos vontade de sair de lá. Afinal, a companhia de livros e escritores sempre foi o mecanismo mais eficaz para aplacar minha solidão e minha sensação de deslocamento no mundo.

Mas foi numa caminhada mais despretensiosa pelo bairro que tive outra grata surpresa. Passando pela rua lateral ao nosso hotel, tive o olhar despertado por uma fachada verde musgo (uma das minhas cores preferidas), que fazia contraste com os clássicos tijolos da arquitetura londrina. Quando ergui os olhos para a inscrição na parte superior da fachada – de novo – me dei conta de onde estava.

Em letras amarelas (outra de minhas cores prediletas), estava escrito “The School of Life”. Olhei para dentro do prédio, encostando bem o rosto na vidraça, sem acreditar que ali era de fato o espaço onde o filósofo Alain de Botton, autor do “Arquitetura da Felicidade” escolheu para montar o que chamou de Escola da Vida. Um ambiente dedicado a discussões filosóficas em torno de questões como a morte, o amor, o trabalho, a família.

Confesso que fiquei bastante emocionada com a coincidência, já que eu tempos atrás, arquitetara planos de um dia conhecer a Escola da Vida, mas simplesmente me esquecera deles, e durante a programação da viagem, nem sequer atentara para o fato de que a School of Life ficava em Londres.

Como era final de semana e, se não me engano, um dos nossos últimos dias na cidade, não tive como voltar depois e conhecer o local por dentro, como eu gostaria. Mas voltei ao Brasil com o desejo renovado de retornar a Bloomsbury quando o tempo for propício, entre outras coisas, para participar de um encontro na School of Life.

Hoje, lendo a revista Serafina, da Folha de São Paulo, soube que Alain de Botton vai abrir uma School of Life em São Paulo, no mês de novembro. A despeito do tom de leve escárnio da matéria (que insinua o caráter de autoajuda que os filósofos mais tradicionais imputam à obra de Allain de Botton), espero ser uma das primeiras alunas dessa nova escola. E espero que a escola seja instalada num bairro tão acolhedor quanto Bloomsbury.

Porque eu estive dos dois lados da verdadeira escola da vida, e nela aprendi, na prática, o que diz Allain de Botton na sua teoria: “um quarto feio pode coagular vagas desconfianças quanto ao que está faltando na vida, enquanto outro ensolarado, revestido com pedras calcárias cor de mel, é capaz de dar sustentação às nossas maiores esperanças”.

A arquitetura, como toda arte fundada na beleza, pode nos ajudar a encontrar caminhos para chegar lá. Ao lugar onde conseguimos pelo menos vislumbrar aquilo que idealmente podemos ser, e com isso, continuar nossa caminhada vida afora, contornando os obstáculos que fatalmente aparecerão no caminho, mas que, eventualmente, podem nos levar a destinos nunca antes imaginados.

domingo, setembro 25th, 2011 Sem categoria Nenhum Comentário