A medida de todas as coisas
O sol, às primeiras horas da manhã de domingo, ilumina o sofá moderno de tecido bom ao toque, a escultura em ferro de uma família em ciranda, o computador de design futurista, os jornais no canto perto da cortina branca esvoaçante, o quadro com a gravura de Dom Quixote…
As coisas minhas parecem ter vida e falar. Falar não do que sou e sim do que pateticamente gostaria de ser. Meu universo particular ganhou nova textura depois de concluir na noite passada o livro de George Perec – “As Coisas”: Inquietante leitura que faz do familiar estranhamente inimigo.
“Às vezes pensariam que uma vida inteira poderia harmoniosamente transcorrer entre aquelas paredes cobertas de livros, entre aqueles objetos tão perfeitamente domesticados que eles acabariam acreditando terem sido criados desde sempre unicamente para uso deles, entre aquelas coisas belas e simples, suaves, luminosas… Nenhum projeto lhes seria impossível. Não conheceriam o rancor, nem a amargura nem a inveja. Pois seus recursos e seus desejos se harmonizariam em todos os pontos, em todos os tempos. Chamariam a esse equilíbrio felicidade e saberiam, por sua liberdade, por sua sabedoria, por sua cultura, preservá-la, descobri-la a cada instante de vida em comum.”
“E depois? Que tinham feito? O que havia acontecido?”
“Alguma coisa que se parecia com uma tragédia tranquila, muito suave, se instalava no coração de suas vidas refreadas. Estavam perdidos entre os escombros de um sonho antiquíssimo, entre resquícios sem forma”.
No centro da mesa de vidro, um vaso verde. As gérberas com suas pétalas queimadas pelo calor inclemente sucumbem retorcidas sobre si mesmas e lembram-me: “Nada permanece”.
Chá das cinco com Sigmund
“Um fogo velho e agora oscilante”. Foi com essa imagem que, em janeiro de 1939, Virginia Woolf descreveu Sigmund Freud. O encontro entre os dois se dera num salão do bairro de Hampstead, em Londres, quando Freud já estava semiparalítico e sofria de um câncer na boca, que o levaria a “resolver morrer” em setembro do mesmo ano, depois do que (em março de 1940) Virginia também colocaria fim à sua vida, ao mergulhar em um rio com os bolsos cheios de pedras.
Quando encontrou a escritora inglesa, que vinha publicando os livros de Freud pela Hogarth Press desde 1924, o pai da psicanálise presenteou-a com um narciso (a flor do luto e da morte) e, entre outras coisas, conversaram sobre a Segunda Guerra Mundial, já em curso.
A insólita conversação, cujo clima sombrio deve ter sido reforçado pelo avançar da guerra, a doença progressiva de Freud e o desequilíbrio crescente de Virginia, teria sido “marcante, mas um pouco penosa, devido à antiquada polidez e ao imperfeito inglês de Freud” (palavras de Virginia), segundo nos conta Herbert Mader, que relatou a passagem do encontro dos dois, na biografia escrita com base em anotações dos diários dela.
Àquela altura, Freud já tinha escrito o seu “Luto e Melancolia” (de 1915), que esta semana chegou às mãos dos leitores brasileiros numa primorosa tradução de Marilene Carone (direto do alemão), editada com o mais rigoroso apuro estético pela CosacNaify.
Acrescida do prefácio de Maria Rita Kehel e do posfácio de Urania Tourinho Peres, a nova edição ilumina o caminho do leitor, mesmo o leitor não familiarizado com o terreno da psicanálise, dando a ele o prazer de simplesmente compreender.
Nas palavras de Maria Rita Kehel, trata-se de uma tradução na qual “o efeito do límpido texto freudiano, cuja fluência foi recuperada pelo talento e pela generosidade de Marilene Carone, é libertar o leitor”, proporcionando ainda o acesso à “beleza e à força de certas expressões”.
Ou, nas palavras de Modesto Carone (ele mesmo um reverenciado tradutor – da obra de Kafka) “nos seus trabalhos ela (Marilene) é capaz de fazer Freud falar, com rigor conceitual, um português elegante, fluente e preciso, que suprime as marcas usuais da passagem de uma língua para outra”.
Ambos reverenciam, portanto, uma capacidade amplamente reconhecida na obra de Freud: a desenvoltura que o autor tinha para escrever literariamente e manejar como poucos o que Maria Rita Kehel chama de “a clara língua do povo”.
Deve ser por isso que, ao contrário do que aconteceu com Virginia, tendo que se haver com o imperfeito inglês do seu interlocutor, ao ler “Luto e Melancolia” nesta nova edição em português, a sensação que fica no leitor é a de quem acaba de ter uma agradável palestra com Sigmund, completada por comentários e notas de seus admiradores, de tal modo que a fala de um vai iluminando a fala do outro.
Essa sensação se amplia à medida que tais “falas” vão sendo costuradas com citações literárias, imagens poéticas e breves digressões que só enriquecem o entendimento, como no caso do próprio Freud ao citar Hamlet, como exemplo de expressão melancólica na aguda frase: “Use every man after his desert, and who should scape whipping?/Dê a cada homem o que ele merece, e quem se salvará de apanhar?”. Ou quando Maria Rita Kehel convoca Guimarães Rosa para elucidar o conceito do melancólico freudiano com a passagem de Manuelzão e Miguelim que começa com a belíssima frase: “Todos os dias que vieram depois era um tempo de doer…”
Outros trechos de igual intensidade poética, poderíamos dizer, estão no posfácio de Urania Tourinho Peres, cujo título por si só é de uma beleza comovente: “Uma ferida a sangrar-lhe a alma”, no qual a autora fala do estado melancólico como a “suspiração pelo que foi sem nunca ter sido: a inexistente completude, o encontro com a verdade enganosa da existência”.
A impressão de estarmos diante de uma obra que é fruto do gênio poético (melancólico por natureza?) acentua-se no finalzinho do referido posfácio, quando Urania relata os últimos dias de Freud, ele próprio vítima de um luto insuperável: a perda do neto Heinz.
É este mesmo Freud, já parcialmente paralisado e ciente do fim próximo, que aparece na biografia “A Medida da Vida” e se encontra com Virginia em Londres para tomar um chá: “um homem torto e encolhido muito velho”, diz Virginia, e hoje poderíamos acrescentar, com uma oculta ferida a sangrar-lhe a alma, segundo a descrição de Urânia.
Na ocasião do encontro em Londres, Leonard, marido de Virginia, teria contado a Freud uma anedota de um juiz que pretendia punir um ladrão de livros obrigando-o a ler todas as obras de Freud, ao que ele (Freud) teria comentado (numa espécie de autoacusação melancólica condensada com um chiste?): “Neste caso, eu era infame, não famoso”.
Urania nos conta que “Freud havia pedido a seu médico Max Schur que o fizesse morrer quando não mais suportasse o sofrimento (…) Uma pequena dose de morfina fechou-lhe a ferida que sangrava e o mergulhou em um “sono pacífico”. Em 23 de setembro de 1939, às três da madrugada, parte Sigmund Freud e nos deixa o legado de continuar sua luta contra a dor da existência”, escreve ela.
Virginia, por sua vez, escolhe um dia de primavera: claro, frio, seco. “Sob suas botas de borracha o caminho lamacento brilhava. E o tempo passava…Ela se esbarrou nos arbustos, tropeçou em pedras. Apanhou uma pedra, e mais outras, e as pôs nos bolsos do casaco. Depois entrou pela água adentro, de bengala em punho, e deixou-se levar…”, conta-nos Herbert Marder.
Virginia e Sigmund eram seguramente seres de excessão, que sentiram, como poucos, o violento peso de viver. Ambos sabiam, cada um a seu modo, o que nós, simples mortais, levamos uma vida toda para compreender: “A felicidade não se encontra no plano da Criação, é necessário inventá-la”.
A nós que aqui restamos, cabe apenas seguir em frente, e esperar o dia em que teremos, também, nosso quinhão de “sono pacífico”. Porque dos “sonos intranqüilos da realidade”, sempre teremos Virginia e Sigmund para nos despertar.
Eu (s) aos pedaços
“A mão que junta os pontos é também a que solta as linhas”. Essa frase da escritora Claudia Nina, postada recentemente em seu perfil no Facebook, pode servir como uma excelente chave para a compreensão e fruição de seu romance de estréia (Esquecer-te de mim, Editora Babel). Com mãos de tecedeira de primeira, a autora enreda o leitor numa espécie de texto-teia, do qual é quase impossível escapar antes que a última linha se derrame no branco da página.
A ambigüidade poética presente no título é só o primeiro rastro do entrelaçamento e dilaceramento de “eus” que se verá ao longo da narrativa, na qual o leitor menos armado chega a perder seus contornos, para depois, no desfazer da ficção, sair da história recomposto e, quem sabe, mais inteiro para enfrentar os dramas cotidianos da chamada “vida real.” Real?
Ao optar por construir as três personagens que habitam o livro como se houvesse um fio invisível a alinhavar suas vidas – fios estes que se dão a ver à medida que vamos nos familiarizando melhor dos seus traços psicológicos e de suas tragédias pessoais – Cláudia Nina cria outro efeito que intensifica a sensação de estarmos diante de histórias que se entrelaçam, se tecem e destecem todo o tempo. Como afinal, poderíamos dizer, é de fato a vida, cujo frágil fio pode se romper a qualquer momento.
As três mulheres (e não haveria de ser outro o número, pois que são três as moiras responsáveis por reter nas mãos o fio do destino dos deuses e humanos), se inserem na tradição de personagens ilustres como Ariadne, Penélope e Sherazade. Todas elas apequenadas, é claro, na clausura dos seus apartamentozinhos de classe média em pleno século XXI, às voltas com máquinas de lavar ensandecidas, brigas de casais no condomínio e a precariedade constitutiva de quem se equilibra na corda bamba, em constante vertigem em relação ao seu lugar social e existencial.
Cada uma a seu modo, essas mulheres fiam (ou desafiam?) seus destinos, mesmo acossadas pela solidão, o medo e a angústia de ser o que se é: sujeitos cindidos por uma falta primordial, condenadas a buscar no outro uma completude que nunca alcançarão, vivendo à beira de um abismo. Abismo este que na narrativa de Cláudia Nina aparece transfigurado em sopas de pacote, que substituem as refeições familiares da personagem separada do marido; insetos asquerosos e memórias mofadas, a representar o pavor da morte de quem está imobilizada diante do trauma da perda do companheiro doente; e mesmo no espelho maligno que agiganta as formas e aterroriza a personagem gorda, maltratada e negligenciada até pelo amante casado e ausente.
São, todas elas, mulheres amputadas da possibilidade de ter algo que se assemelhe ao menos de longe à perdida metade do mim, tentando a duras penas esquecer a parte de si que perderam no outro e seguir adiante, cegas ao fio de esperança que pode libertá-las do labirinto onde o monstro da loucura e da solidão espreita e espera.
O avesso da coisa
Quem for curioso o suficiente, para olhar mais de perto e com cuidado o avesso da história, poderá entrever, no alinhavo escondido sob a textura aparente, a origem nobre dos fios utilizados pela autora para alimentar o seu tear imaginário. Lá está em intertexto – declarado e assumido, implícito e explícito – os laços familiares das personagens de Esquecer-te de mim, com aquelas lindamente construídas por Clarice Lispector, autora entranhada no imaginário de Cláudia Nina, devido aos anos de estudos que ela dedicou à obra clariceana, e cujo resultado pode ser conferido em seu livro “A palavra usurpada”, tradução da tese de doutorado sobre Clarice.
Por trás de Joana, Laura e Luaneide, é possível vislumbrar contornos das personagens clariceanas, ora evidentes, como no nome Joana (o mesmo da protagonista de Perto do Coração Selvagem); ora condensados e/ou deslocados, como em Luaneide, esta última construída como duplo/oposto de Macabéa (heroína de A Hora da Estrela).
Ponto alto da narrativa, a “gorda, imensa e esparramada” Luaneide, comedora de lasanha, se contrapõe de forma brilhante à secura da nordestina Macabéa, que nem corpo tinha e só se alimentava de cachorro quente. Uma lua. Outra estrela. Mas ambas disputando o mesmo céu inclemente, na mais absoluta carência afetiva, cumprindo a sina de buscar o seu lugar no mundo, já que como sentenciou Clarice, “até no capim vagabundo há desejo de sol”.
E que não se engane o leitor apressado: por trás do aparente tratamento impiedoso e hostil, beirando o politicamente incorreto, que Cláudia Nina dá a suas personagens, há, no fundo de tudo, uma imensa generosidade emprestando a cada uma delas um raio de sol: nas janelas abertas, nas roupas coloridas, na aceitação de si mesma. Uma luz quente capaz de “secar a alma” e curar as feridas, mas algo a que cada uma delas só terá acesso depois de “ficar um bom tempo vazia dentro”, no limbo do existir, presas aos círculos que compõem o inferno particular (o outro?), para depois, só depois, de deixar o espírito “estirado no sol” estarem “de volta à condição de uso” e acordarem em um Si maior.
Trilha sonora
E como é moderno dizer que o leitor é também um autor, uma vez que alinhava a história alheia com suas experiências pessoais, ouso eu atribuir a Esquecer-te de mim uma trilha sonora. A música que durante toda a leitura modulou meus sentimentos.
Oh, pedaço de mim
Oh, metade afastada de mim
Leva o teu olhar
Que a saudade é o pior tormento
É pior do que o esquecimento
É pior do que se entrevar
Oh, pedaço de mim
Oh, metade exilada de mim
Leva os teus sinais
Que a saudade dói como um barco
Que aos poucos descreve um arco
E evita atracar no cais
Oh, pedaço de mim
Oh, metade arrancada de mim
Leva o vulto teu
Que a saudade é o revés de um parto
A saudade é arrumar o quarto
Do filho que já morreu
Oh, pedaço de mim
Oh, metade amputada de mim
Leva o que há de ti
Que a saudade dói latejada
É assim como uma fisgada
No membro que já perdi
Oh, pedaço de mim
Oh, metade adorada de mim
Leva os olhos meus
Que a saudade é o pior castigo
E eu não quero levar comigo
A mortalha do amor
Adeus
Afinidades eletivas
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Quando eu era criança, minha mãe sempre me dizia para tomar cuidado com as más companhias. Embora desprovida de cultura, minha mãe sabia o que dizia. E eu, que em geral fui uma filha obediente, resolvi seguir pela vida afora o conselho da minha mãe, de tal forma a poder afirmar mais tarde o dito belamente sintetizado numa frase do poeta Manoel de Barros, que eu carrego sempre na ponta do pensamento: Os outros: o melhor de mim sou eles.
Agora, nestes tempos de redes sociais, em que todo mundo “quer ser seu amigo”, cuido de não esquecer a velha lição materna. Seleciono, com certo critério, os amigos que transitam pelo meu mundo virtual, porque mesmo no Facebook e no meu site, estou sempre expondo minha alma intranqüila e pondo meu coração a nu.
Assim é que tenho, na maioria dos casos, feito poucas, mas boas amizades na rede. “Relaciono-me”, no mais das vezes, com pessoas as quais admiro intelectualmente e/ou pelas quais tenho afeto verdadeiro. E evito, tanto quanto posso, intimidades com estranhos.
Mantenho também uma certa observância deste mesmo conselho no que diz respeito aos sites que freqüento. Minha mãe dizia que a gente não devia ficar indo à casa de qualquer um, principalmente na casa de quem a gente não conhece direito.
De modo que entre os ambientes virtuais onde mais me sinto à vontade, estão, naturalmente, todos aqueles em que se fala de livros, entre eles, os sites das editoras que mais admiro, como é o caso da Companhia das Letras.
No meu entra e sai nesta casa, encontrei um amigo e tanto, que mesmo sem saber que eu existo, muito tem me ensinado sobre como ser e estar no mundo.
O Luiz é um homem admirável, não apenas porque encarna o ideal de editor que todo iniciante no ofício mira e deseja ser (ou que todo escritor gostaria de ter), mas também pelos bons sentimentos e atitudes que suas palavras inspiram. Sim, estou me referindo ao Luiz Schwarcz. O próprio. Em pessoa e palavras.
Acompanho avidamente o blog que ele publica, onde sempre aprendo muitíssimo, me divirto e me emociono, a ponto de comentar com meu marido as novidades que o Luiz “me conta”, como quem relata um encontro real com um velho e bom amigo.
Óbvio dizer, mas o Luiz é daquelas pessoas que sempre nos acrescentam algo, como os extraordinários e inesquecíveis escritores e personagens com os quais nos deparamos nas leituras da vida.
Agora, enquanto escrevo, vou pondo as palavras nas costas do ritmo (como aconselhava Virginia Woolf) seguindo a dica que o Luiz me deu em seu último post. Escrevo ao som da sonata para piano número 29, opus 106, Hammerklavier, de Beethoven. A mesma música que o Luiz ouviu repetidamente nas férias, enquanto lia “Guerra e Paz”.
É, eu sei… o bom gosto do Luiz é fascinante! O amor dele pelos livros e pela música tem algo de comovente até. Incrível como ele consegue ser erudito sem ser pedante! Coisa raríssima de se ver.
Hoje eu fiquei especialmente feliz ao encontrar nas mais recentes palavras do Luiz outras afinidades mais corriqueiras: o gosto por praias e lugares desconhecidos e uma leve insinuação de que ele é alguém que costuma ter um certo desejo de sol.
Tenho a impressão de que se minha mãe pudesse conhecer o Luiz e saber um pouco mais sobre ele, ficaria orgulhosa de mim, do mim em que eu vou me transformando a cada dia que passa, a cada nova conversa, a cada novo livro, música ou pensamento que vamos compartilhando pela estrada.
É claro que eu sei ser esta uma via de mão única! O Luiz não me conhece, mas isso não importa. Pois ele já é para mim uma companhia inseparável, tanto quanto Virginia, Jane, Clarice, Lygia, Adélia, Carlos, João, Fernando, José… E tantas outras excelentes companhias, sem as quais já não posso viver.
De modo que deixo aqui registrada minha gratidão ao Luiz e a esta amizade improvável, uma amizade que eu espero poder merecer pelo resto da vida. Pois também acredito numa outra máxima, provavelmente ouvida da boca de alguma outra sábia mãe, a de que cada um tem os amigos que merece.
O punho de Deus
Chegar ao fim de qualquer coisa deixa em nós um misto de alegria e melancolia. Alegria pelo objetivo alcançado. Melancolia pela perda que representa chegar ao “fundo púrpura”, antes desconhecido e misterioso, para o qual caminhávamos. Viver é, em certa medida, avançar para um fim, insuspeito e assustador. Rumo a um dissolver-se em algo maior? Quem saberá?
Depois de quase dois meses, concluo a leitura da biografia de Virginia Woolf. Quase 600 páginas. Cerca de 60 dias de convívio noturno intenso. Centenas de horas, minutos, segundos…
Foram dias tenebrosos esses, nos quais senti – na vida real e literária – de forma contundente, o movimento do “punho de Deus” agindo sobre nós.
Virginia foi minha companheira das horas mais sombrias, porque à noite, enquanto as paredes dormem, todas as dores e medos se agigantam, o sono tarda a chegar e a gente sempre espera o raiar do dia como promessa de renascimento. E enquanto o renascimento não vinha, eu tinha Virginia para segurar minha mão durante a travessia.
Alguém poderá objetar que ter Virginia como anjo da guarda quando se está enfermo não é a melhor das escolhas. O que não sabem é o efeito curador que o espelhamento sincero pode ter sobre uma alma desesperada.
Lendo “A Medida da Vida”, caminhei com Virginia pelos bosques de Rodmel; sentei-me com ela em frente ao fogo em Monk’s House para ler Shakespeare e Yeats declarando “que os grandes escritores nada têm, a não ser seus corações estupefatos e cegos”; recebi Freud para um chá em Londres, quando ele já estava velho e curvo; colhi amoras para a sobremesa do jantar nos campos; e ouvi o barulho do ir e vir das ondas durante viagens ao litoral, depois do que, adormecia tendo na boca um gosto de sal.
Por noites a fio, acompanhei os passos de Virginia em seus dez últimos anos de vida, sua rotina diária de escrita e leitura, a angústia de não sentir-se suficientemente boa para escrever suas histórias e compor seus personagens. A luta para ter controle sobre os pensamentos que a desequilibravam arrastando-o para o fundo de um poço imaginário.
Escrever, para ela, “era como estar suspensa numa bolha mágica que a protegia dos choques vindos de fora”. “Às vezes, quando ela estava cansada ou distraída, tornava-se violentamente consciente do ‘mundo baço e desiludido’” e eu, através do olhar de Virginia, reparava ao meu redor e via com maior nitidez as banalidades a que tanto nos apegamos e a falta de sentido de nossas ações.
Tudo isso ajudou-me a atravessar a escuridão.
Foi então que, duas noites atrás, antes de ler o último capítulo da vida de Virginia, já madrugada, fui acordada pelo meu marido que me dizia em lágrimas: “Eu abri o exame e deu negativo. Está tudo bem com você”. Cambaleante, eu o segui até a sala, conduzida a uma tela de computador que me ofuscava os olhos recém-abertos. Em meio à luz, pude ler umas palavras quase inverossímeis que diziam: “Negativo para células atípicas”. Lembro-me de ter perguntado a ele se eu não estava sonhando…
Desde então, eu vinha retardando o momento de ler o final do livro, um final que eu já conhecia, porque eu queria, queria muito, que Virginia não entrasse no rio. Cheguei a imaginar a possibilidade de alcançá-la ainda na trilha e dizer: espere, não vá, fique um pouco mais!
Mas nossos tempos eram diversos. Habitávamos mundos distintos e eu nada pude fazer:
“Era um dia de primavera: claro, frio, seco. Sob suas botas de borracha o caminho lamacento brilhava. E o tempo passava…Ela se esbarrou nos arbustos, tropeçou em pedras. Apanhou uma pedra, e mais outras, e as pôs nos bolsos do casaco. Depois entrou pela água adentro, de bengala em punho, e deixou-se levar…”
Não houve tempo para que eu dissesse algo sobre a minha gratidão.
Não houve tempo para que eu fizesse minhas suas palavras:
“Se eu não tivesse sofrido tanto, não poderia ser tão feliz”.
Virginia não estava mais lá.
Literatices III
Já está pronto o terceiro livro da série O Menino e o Dinheiro, de Reinaldo Domingos, cuja adaptação infantil foi feita por mim, com as belíssimas ilustrações do talentoso Ariel Fajtlowicz. Em breve, nas livrarias de todo o país.
A medida da vida
Ontem comentei no post de Joselia Aguiar, sobre o meu grande e repentino interesse pelas biografias. Primeiro, foi Clarice, escrita por Benjamin Moser, livro simplesmente arrebatador, que me fez amar mais e mais a estranheza poética de Clarice e reler compulsivamente vários de seus textos um na sequência do outro. “Água Viva” me deixou meio em transe nos últimos dias, arrastada pela torrente do que está “atrás do pensamento” em potência máxima, até chegar ao fundo de mim mesma:
“E eis que depois de uma tarde de “quem sou” e de acordar à uma hora da madrugada ainda em desespero – eis que às três horas da madrugada acordei, plenitude sem fulminação. Simplesmente eu sou eu. E você é você. É vasto, vai durar. O que escrevo é um “isto”. Não vai parar: continua”.
Depois desse redemoinho clariceano, me senti como que presenteada pela Cosac Naif, com o lançamento da biografia de Virginia Woolf – A Medida da Vida, de Herbert Mader. O livro, que tem projeto gráfico semelhante ao de Clarice, é belíssimo, a começar pela orelha, com o primoroso texto escrito por Maria Rita Kehl. E o melhor de tudo é o efeito. A exemplo do que aconteceu com Clarice, a biografia de Virginia me faz ter vontade de intercalar um capítulo e outro com a leitura ou releitura dos textos dela: Mrs. Dolloway, To The Light House, The Waves. E Virginia, que já estava em mim de um modo tão imperfeito quanto Clarice, foi me tomando a alma, a cada frase…
Quando sua residência em Londres foi bombardeada durante a Primeira Grande Guerra, ao visitar sua casa, totalmente devastada, e constatar as poucas chances de sobrevivência dos vizinhos mais pobres, Virginia, desolada, comentou: “Nós, pelo menos, estivemos na Itália, e lemos Shakespeare. Eles não”.
Suspeito que talvez fosse essa a sua verdadeira medida da vida. E eu, aqui, só e desolada a meu modo, em meio às minhas minúsculas guerras cotidianas, vou lendo Virginia e esperando o fim do mundo para quem sabe dizer um dia: Eu, pelo menos, li Virginia e Clarice e, olhando-as, pude reconhecer a mim mesma, e dizer, certa de mim e do que sou: Eu sou isto! E basta. É vasto, vai durar.
E se as minhas precárias palavras forem insuficientes para dizer o meu “isto”, que são elas em mim, talvez as de Maria Rita Kehl ao descrever Virginia o façam de modo melhor:
“A Virginia que Mader nos apresenta é uma mulher que enfrenta o lado trágico da existência sem deixar de aproveitar todas as chances de alegria que a vida lhe oferece. Uma pessoa atormentada, depressiva, mas capaz de dizer (o que em mim, Simone, provoca um eco profundo e bom):
‘Se eu não sofresse tanto, não poderia ser feliz‘”.
Feriado de mim mesmo
Os feriados existem para que possamos sair da máquina. Os feriados existem para que possamos viver para além do frenético ritmo da produção. Os feriados contrariam a lógica do capital e da acumulação. Nos feriados, ficamos dispersos, indolentes, sensíveis ao que está dentro e não fora de nós. Vemos, sentimos e pensamos em coisas nas quais não se pode ter atenção no dia a dia fragmentado por demandas externas. As demandas dos outros ficam para depois. Nos feriados podemos seguir o ritmo interno do sono, da fome, do desejo. Nos feriados podemos existir em nós mesmos.
Essa música, escrita por Don McLean em homenagem a Van Gogh, data dos anos 70. Dizem que o título se refere ao quadro “Starry Night.” A canção descreve diferentes quadros do pintor. O compositor escreveu a letra após a leitura da biografia de Van Gogh. Foi sucesso na Inglaterra e nos EUA. Foi tocada diariamente por muitos anos no Museu Van Gogh de Amsterdã. A partitura está segura no museu junto com os pincéis, chapéu e outros pertences do pintor.Diz-se que Van Gogh pintou “Starry Night” na clínica onde estava e quando soube que durante toda sua vida só havia vendido um quadro.
Agradeço duplamente a Douglas Figueira: por ter me enviado o arquivo que tanto me tocou, e por ter feito e esforço necessário para converter de modo que eu pudesse compartilhar no Facebook.
Aproveite que você hoje tem tempo: veja, escuta, sinta! Afinal, é para isso que os feriados existem.
Que bom que você veio…
No dia 23 de novembro do ano passado eu tinha um compromisso inadiável: colher um autógrafo e assistir uma palestra de Benjamim Moser, autor da biografia de Clarice, que à época tinha se tornado a sensação de quase todas as revistas e cadernos culturais do Brasil.
Fui à Livraria Cultura do Conjunto Nacional com minha amiga Lívia. Estávamos bem no início da fila, umas dez pessoas apenas à nossa frente. Entre um autógrafo e outro, eu espiava os gestos e olhares de Benjamin, um rapaz lindo, cabelos desalinhados e gigantes olhos claros disfarçados sob as lentes de aro preto.
Quando chegou o meu momento de receber seu autógrafo, ele fez uma pausa, me olhou intensamente como se quisesse me adivinhar de alguma forma, e com aquele sorriso que abraça a gente de tão acolhedor e sincero, perguntou meu nome e assinou, com uma caneta prata, numa das páginas pretas que abrem a biografia: “Simone, que bom que você veio. Um abraço. Benjamin Moser”.
Durante a palestra, ouvi Benjamim dizer do seu amor por Clarice e por mais de uma vez fiquei comovida com o afeto que esse norte-americano devota à nossa maior escritora, bem como à nossa língua e à nossa cultura. Mas saindo de lá, não li o livro. Algo naquele calhamaço de quase 700 páginas me amedrontava. Quase um ano se passou desde então.
Estou hoje, ontem, anteontem e já há alguns dias, mergulhada no livro que Benjamin escreveu sobre Clarice. Passo o dia ansiosa pelo momento em que tudo vai se aquietar em casa e que eu vou poder me recolher ao meu quarto e seguir Benjamin na sua intensa busca pela verdade de Clarice.
É indescritível o prazer e o sabor que emanam da mistura Clarice Lispector-Benjamin Moser. Clarice talvez inventasse uma palavra para dizer esse sentimento… Eu, com os precários recursos de linguagem de que disponho, arrisco dizer que, num futuro não muito distante, quem for ler Benjamin Moser falando de Clarice Lispector talvez sinta algo parecido com o que sentimos hoje quando lemos Walter Benjamin falando de Charles Baudelaire.
Naturalmente que nessa minha analogia, surgida agora no presente da escrita, há uma associação livre. Reparem o C de Clarice que faz par com o C de Charles e o B de Benjamin dialogando com o B de Baudelaire, sem contar a duplicidade do Benjamim. E, se quisermos ir mais longe, na simetria invertida que existe no M de Moser quando emparelhado com o W de Walter.
Clarice, na sua busca mística e cabalística pelo poder absoluto da linguagem, talvez encontrasse um significado por trás de tais combinações de letras.
Instigada pelo desejo meio infantil de encontrar nessas figuras que tanto adoro algum espelhamento possível, olho para o nome Clarice Lispector, com sua sonoridade cortante e altiva, do C, do L, e do T, e me enxergo dentro dela, não pela via direta, mas pelo nome de minha mãe, alice, inscrito em Clarice.
De outra perspectiva olho para o nome de Benjamim Moser, agora sentindo a sonoridade apaziquadora e terna das letras M e N, e vejo meu nome, simone, inscrito, em fragmentos, no nome dele, até que meus olhos, insatisfeitos, pousam no “mim” ao final de Benjamim.
Tudo isso eu comecei a imaginar agora mesmo, quando lia uma matéria, dando conta de que Benjamim Moser acaba de traduzir “A Hora da Estrela” para o inglês. Seu The Hour of The Star deve sair no próximo dia 9 de novembro, nos Estados Unidos. E, talvez, no próximo dia 23 de novembro, exatamente um ano após o meu encontro com ele, seu mais novo mergulho no mundo de Clarice talvez esteja disponível a quem, como eu, quiser se aventurar a ler Clarice Lispector traduzida por Benjamim Moser, em inglês.
Seja qual for o resultado dessa combinação insólita de letras para verter Macabéa para o inglês, tenho certeza que poderei dizer:
“Benjamin, que bom que você veio. Um abraço. Simone Paulino.”
Clariceana
Clarice Lispector. O nome é em si um estilhaço. Sonoridade pontiaguda que penetra fundo no ouvido-alma da gente. Clarice. Clarice é perfurante. Entranha-se no reino das palavras e diz soberba: Tenho as chaves! Clarice é quase um verbo. Se eu Clarice. Se tu Clarices. Como seria o mundo se todos nós Clarícemos? Mas Clarice está em mim de um modo imperfeito. Se eu Clarice era só uma possibilidade remota que não se completou. Então trago Clarice para o presente e ela me atinge qual lâmina afiada e transforma tudo à minha volta em fragmento. Não consigo apreender seus textos inteiros. Por isso, vou aos poucos. Recolho aqui e ali uma parte. Clarice, metonímia pura. Perguntei a Clarice como é a vida após a morte. Clarice, escorregadia, me inquiriu: Que importa o futuro do pretérito? O instante, só o instante conta. Entenda, enquanto é presente! Esse mesmo, translúcido, que ao pensares nele já te escapa. Agarra-te a ele. Prenda-o em ti. É o que tens por hora, e é muito, creia-me. Pedi uma resposta e Clarice me devolveu perguntas. Será isso? Viver, uma infinita pergunta? Um consulta interminável a um dicionário com sucessivos verbetes remissivos? De onde? Para onde? Por quê? Por quanto tempo? Tempo? Que é o tempo? Se não me perguntam o que seja o tempo, sei. Mas se me perguntam, onde a resposta? Não há respostas, meu Deus, é isso? Deus?
Tenho febre de estar viva, e ela me consome, por quê? Será a existência um eterno delírio, por quê? A chuva lavou a cidade e não refrescou meu espírito, por quê? Tenho uma mesa farta e sinto fome, por quê? O espelho não reflete minha alma, por quê? Cada pergunta é um caco de Clarice que penetrou na pele porosa do meu pensamento. As ruas se cobrem de flores amarelas e roxas e isso me inquieta, por quê? A morte é roxa e a vida, amarela, e a cada quarteirão elas se alternam. Sim, seria uma resposta. Mas é belo o roxo alternado com o amarelo. E há um sopro que às vezes mistura tudo numa cor indefinida e vaga. Tese, antítese, síntese. É isso, a vida? Queria ir além, lá, bem perto do coração selvagem da vida. Mas eu, Simone. Se eu Clarice…













